Sobre o autor
Jaime Ferreri diz ter sido um rapazito nascido em BRAVÃES, oriundo duma família que aqui vive, de prova provada, há mais de seiscentos anos. Foi para a Escola Primária da terra onde aprendeu as primeiras letras e a partir da tabuada tornou-se barra a fazer contas. Adorava também e muito, a história, a geografia, as ciências naturais que para além da aprendizagem o ajudaram a treinar a memória… tudo lhe foi correndo sem problemas. A fama de não falhar perguntas levaram-no à sala das raparigas onde a professora badalava datas e mais saberes. Uma roda e a primeira pergunta.
As moças falharam todas e ele respondeu certo. A professora passa-lhe para as mãos a avantajada régua curricular e ordena-lhe que desse seis “bolos” a cada uma. Por bondade “deu” seis miseráveis bolos à primeira. A professora gritou: – Não é assim! – chama-o, tira-lhe a régua e prega-lhe seis bojardas nas unhas. Esteve para fugir pela porta fora, mas a mãe apanharia um desgosto. Aguentou. E o professor nunca mais o deixou ir “à mostra do saber” da sala delas.
Seu pai, entretanto, tinha ido para o Brasil. Por isso regressaram à casa dos avós. Começou para ele uma nova aventura: fazer uma mota de pau. Sete anos buliçosos com as tardes de quarta-feira a usar a machadinha do avô. Ajudar o avô a substituir um caibro da ramada, a esticar um arame… foi a forma de aprender a “ganhar a mão” para mexer nas ferramentas. Jaime Ferreri, de pequenito, já sabia que havia no Brasil uma segunda família. Não lhe restava outra hipótese. O professor disse ao padre: “Este rapazinho tinha de estudar.” A única alternativa era o seminário. Não lhe apetecia muito, mas foi. Aguentou três anos. Ao fim de três anos, fugiu. Não a saltar o muro ou a trepar ao portão do recreio. Afrontou o Cónego que dirigia a casa. – Nem penses nisso, disse-lhe zangado. Fitou o Cónego e acrescentou: -Vou dizer aos meus colegas que não me deixa ir embora. -Não ouses, disse zangado.
No dia seguinte o prefeito encheu os ouvidos ao Cónego. Pelas sete da tarde veio a ordem para se apresentar.
– Ousaste! Avisei-te. Pega nestes sete escudos e cinquenta centavos, deixas sair o teu ano para a missa, metes as tuas coisas na mala, desces que o porteiro tem ordens para te deixar sair. Vais na camioneta do senhor Alves, às sete e meia da manhã.
Saiu sem uma fala, um simples adeus. O externato da terra vizinha esperava-o.
Andava no quarto ano, quando apareceu um indivíduo que queria que o filho estudasse, mas pelo menor custo em dinheiro. Veio ter com ele e disse-lhe: – Ouça lá, dizem que você é fino. É capaz de ensinar o primeiro e o segundo anos do liceu ao meu filho? Disse que sim.
– Dou-lhe 150 escudos por mês.
Passou a ganhar metade da propina do externato onde se matriculara. Daí ficou-lhe esse vício de ser professor.
Termina o quinto ano e foi trabalhar para o Porto. A tropa estava em cima dele. Pensou: tenho de fazer o sétimo ano do liceu. Saiu da empresa onde estava, mas o patrão tentou suborná-lo: de 600 escudos tentou-o com dois contos. Como lhe fazia jeito um dinheirito ficou mais um ano, fazia-lhe cartas à noite. Era uma agência que dava informações sobre quem queria comprar a prestações, frigoríficos, máquinas de lavar, rádios, fogões, etc.
Fez o sétimo ano num só ano. Dispensou da aptidão. Foi-se matricular em Coimbra. Fez um papel para a bolsa, mas não pediu o adiamento da tropa. Azar: calhou-lhe a tropa. Andou por Anás e Caifás: Mafra, Vendas Novas, Elvas, Tancos, Vila Nova de Gaia e Viana do Castelo. Foi à guerra. Moçambique. Rebentou uma mina anticarro. Regressou todo escaqueirado: com o calcâneo esquerdo desfeito, o quinto metatarso direito partido, três vértebras lombares, cinco costelas, o crânio e o braço direito cheios de mazelas. Diz sobre si ser o tal homem cujo braço esquerdo é (o) direito. Mas sente-se vivo e a viver, a sonhar e a contar. Mandaram-no embora da tropa e começou logo a trabalhar como professor.
Apareceu a Matemática Moderna. Andava a ler umas coisas disso, por prazer e curiosidade. Um amigo disse-lhe que a professora da filha não sabia conjuntos. Ele disse-lhe: “Isso é fácil.” Comprou os livros, estudou de trás para a frente toda a teoria, explicou à miúda e ela tirou uma nota fabulosa. O padre do seminário passionista, que dava Matemática e Física, foi para Lisboa. O diretor ouviu dizer que eu sabia daquilo. Foi dar aulas ao segundo ano. Estreou-se como professor num exame do ciclo, com um aluno a tirar 20 valores a Matemática e a abrir-lhe caminho para ser contratado como docente em mais que um externato. Optou por aquele onde foi aluno.
Desistiu de Direito. Foi para a Universidade do Minho, onde teve, no seu dizer, um professor extraordinário, o Altamiro Machado, o homem do Projeto Minerva. Foi ele que o foi buscar para esse projeto. Andou a lançar computadores pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês. Nunca mais lhe fugiu esse gosto de mexer.
É um homem intranquilo por natureza. Se é preciso arranjar o trator, arranja. Se é preciso sulfatar, sulfata. Se é preciso enxertar a vinha, enxerta. Gosta de fazer. Um dia desafiou os jovens de Bravães para com eles fazer uma peça de teatro. Fizeram A Dolorosa Paixão. Como no ano de (2025) a Páscoa era altíssima, disse: “Está na altura de cumprir o seu velho sonho.” Há três mosteiros, desafiou a Junta de S. Martinho de Crasto e a Associação Cultural de Vila Nova de Muía. Escreveu O Sermão da Montanha – é fã do Pier Paolo Pasolini – , fizeram essa peça extraordinária na véspera do Domingo de Ramos. Depois A Dolorosa Paixão (que faziam há 24 anos) e por último, a Ressurreição, em Crasto.
E não é só isso. Também está ligado ao Anda à Varanda, (encontro de Gaiteiros) que se faz aqui no sábado antes de Santo Amaro, cuja festa é a 15 de janeiro. É uma alegria. Costuma tocar caixa e é o homem da lareira. Está ligado ao Grupo dos Canários e das gaitas de foles.
Depois temos a Senhora da Pegadinha(1). Toda a gente diz assim: “É a Senhora da Pegadinha(2).” Ele fez da lenda uma peça de teatro. Temos cá o documento de 1708 que diz: “Nossa Senhora da Anunciação da Pegada(3).” É a mesma da Igreja Românica. A imagem principal da igreja de Bravães é uma Senhora da Anunciação. Apareceu, segundo a lenda, a uma pastora de Bruzende. Um dia, o bispo pediu para encenar essa lenda num encontro de catequistas. Ele disse que sim, mas queria um pagamento simbólico: um penedo. E lá está o penedo no adro da capela, com a explicação da lenda.
Vive sozinho há quinze anos. Tem um filho, duas noras, cinco netos e dois bisnetos. Tem tempo para estas coisas todas. Jaime Ferreri e o seu neto Fábio Miguel, editaram, na Aquileio Edições, editora da família, um livro de um antepassado, Alfredo Cró Ferreri, que foi militar a governador em Moçambique.
Quer em Bravães, quer no concelho de Ponte da Barca, gosta de recolher as histórias e, aprendendo, gosta de ensinar o que vai sabendo. Foi à guerra, mas felizmente a mina só lhe tocou o corpo, mas não a mona. Sorri e diz: Sobrevivi. E diz sempre: a nossa sorte aqui, sem carne e sem dinheiro, foi o feijão, que crescia trepando nos campos de milho da quinta. Foi a única forma de termos proteína.
Cada um de nós é único. E quem duvida, que lhe arranje duas pupilas iguais, impressões digitais iguais ou as linhas das mãos iguais. Lutamos pela liberdade porque somos diferentes. Essa é a sua divisa de vida.
Aos quarenta anos fez uma edição de autor de “O CABRITO MONTÊS”, o seu primeiro livro. Com toda a calma e muito estudo, saborosa leitura e acertada investigação, já vai em onze livros, alguns com segunda edição.
Uma promessa… quer publicar o próximo romance neste ano de 2026, ano em que faz 40 anos de vida literária.
Jaime Ferreri – janeiro de 2026
Notas de leitura: (1 e 2) – Pé(gadinha) / (3) – Pé(gada)